O que falar na terapia? Sobre falar livremente em uma sessão de psicoterapia
Não sabe o que falar na terapia? Entenda como a fala acontece em uma sessão de psicoterapia, o que fazer quando faltam palavras e por que não é preciso chegar com um assunto pronto.
Vitória Dias — Psicóloga Clínica | CRP 13/13024
9/15/20266 min read


Talvez uma das coisas mais difíceis antes da primeira sessão de psicoterapia seja justamente aquilo que ainda nem começou: imaginar o que você vai dizer.
Você marca o horário e, nos dias seguintes, começa a organizar mentalmente a conversa. Preciso explicar por que estou aqui? Começo pela infância? Falo primeiro do que aconteceu esta semana? E se o psicólogo perguntar alguma coisa que eu não saiba responder?
Talvez você até ensaie uma introdução.
A questão é que uma sessão de psicoterapia não exige uma boa introdução.
Você pode chegar sabendo exatamente o que quer contar. Pode ter uma história pensada durante dias. Ou pode sentar e descobrir que aquilo que parecia tão claro antes da sessão ficou difícil de dizer quando finalmente apareceu alguém disposto a escutar.
Se parte dessa preocupação vem de não saber o que acontece nesse primeiro encontro, explico também como funciona a primeira sessão de terapia e o que esperar dela.
Preciso saber por que procurei por terapia?
É comum que a primeira conversa passe pelo motivo que levou você até ali.
Para algumas pessoas, esse motivo tem nome e data: uma separação, uma perda, uma crise de ansiedade, um conflito familiar, uma dificuldade no trabalho. Alguma coisa aconteceu e surgiu a sensação de que continuar lidando sozinho com aquilo já não estava funcionando tão bem.
Para outras, a resposta é menos organizada:
“Não sei exatamente.”
“Minha vida está bem, mas eu não me sinto bem.”
“Tem alguma coisa que continua está incomodando.”
Há uma expectativa curiosa de que seja preciso compreender o próprio sofrimento antes de procurar alguém para ajudar a compreendê-lo. Como se a primeira sessão fosse o momento de apresentar um relatório relativamente organizado sobre si mesmo: aqui está o problema, estas são as causas e agora precisamos encontrar uma solução.
Você pode começar pelo que sabe — inclusive quando o que sabe ainda é muito pouco.
Então eu posso falar sobre qualquer coisa?
Na psicanálise, existe uma proposta que parece simples até tentarmos colocá-la em prática: falar daquilo que vier à cabeça.
Isso não significa que seja necessário dizer absolutamente tudo, muito menos ultrapassar limites para os quais você ainda não está preparado. Também não existe a obrigação de produzir assuntos interessantes durante toda a sessão.
Significa que a conversa não precisa obedecer à mesma organização que costumamos exigir de nós mesmos fora dali.
Você pode começar falando sobre o motivo que o levou à buscar terapia e acabar contando alguma coisa aparentemente banal que aconteceu no almoço. Pode mudar de assunto porque se lembrou de alguém. Pode perceber que estava prestes a dizer alguma coisa e desistir.
Até dizer “não quero falar sobre isso” é dizer alguma coisa.
A proposta não é fazer uma apresentação coerente da sua vida, mas permitir que a fala tenha algum espaço para seguir caminhos que você não planejou antes de entrar na sessão.
E se eu não souber o que dizer?
Pode acontecer.
Há pessoas que chegam à primeira sessão e falam quase sem interrupção. Outras respondem às primeiras perguntas e encontram um silêncio que parece durar muito mais do que realmente durou.
O silêncio pode ser desconfortável porque estamos acostumados a tratá-lo como uma falha na conversa. Quando duas pessoas param de falar, parece que alguém precisa salvar a situação.
Na terapia, nem sempre.
Você pode dizer que não sabe o que falar, que está nervoso ou que passou a semana pensando no que deveria dizer e agora não consegue lembrar de nada.
Inclusive, a preocupação em “fazer a sessão direito” pode entrar na própria conversa. Por que seria tão importante saber o que dizer? Existe uma expectativa sobre aquilo que o psicólogo espera de você?
A falta de assunto deixa, então, de ser apenas um problema que precisa ser resolvido. Ela própria pode se tornar assunto.
Preciso contar sobre minha infância?
Não necessariamente.
A associação entre psicanálise e infância é tão conhecida que alguém pode imaginar que a primeira sessão começa quase obrigatoriamente com: “conte sobre seus pais”.
É claro que sua história importa. As experiências que tivemos e os vínculos que construímos participam da maneira como nos relacionamos com o mundo, mas isso não significa que seja necessário começar cronologicamente.
Você pode começar pelo que aconteceu ontem.
Se uma experiência da infância tiver relação com aquilo que está sendo falado, haverá tempo para que ela apareça. Não é preciso chegar à primeira sessão tentando reconstruir vinte ou trinta anos de vida para garantir que o psicólogo tenha todas as informações existentes.
Uma sessão de psicoterapia não é uma biografia contada em uma ordem cronológica.
O passado interessa também pela maneira como ele participa do presente.
O psicólogo vai me fazer perguntas?
Pode fazer.
O psicólogo não está ali apenas para assistir silenciosamente enquanto você fala. Pode perguntar, retomar uma frase, pedir que você desenvolva alguma coisa ou chamar atenção para um ponto que passou rapidamente pela conversa.
Mas talvez as perguntas sejam diferentes daquelas que você imaginava receber.
Suponha que você passe vários minutos explicando por que tomou determinada decisão. Há bons argumentos, razões bastante compreensíveis e uma sequência lógica impecável. No meio de tudo isso, você diz quase sem perceber:
“Eu sabia que ia acabar assim.”
Talvez seja justamente aí que apareça uma pergunta:
Você sabia?
De repente, a conversa já não está apenas tentando decidir se sua escolha foi certa ou errada. Outra questão apareceu.
A terapia não serve para oferecer uma opinião externa sobre sua vida. O psicólogo não está ali para decidir com quem você deve se relacionar, se precisa trocar de emprego ou qual escolha seria mais "sensata".
O trabalho não é encontrar uma resposta pronta para todas as questões que surgem na sessão, mas sim entender por que elas se apresentam daquela maneira para você.
Existe alguma coisa que eu não deveria falar?
Você não precisa selecionar uma versão "mais apresentável" de si mesmo antes da sessão.
Raiva, inveja, vergonha, desejo, culpa, pensamentos contraditórios, coisas das quais você não se orgulha: um processo de psicoterapia perderia bastante de sua função se só fosse possível levar até ele aquilo que conseguimos contar sem desconforto.
Isso não torna fácil falar sobre essas coisas.
A confiança não aparece automaticamente porque existe um profissional do outro lado da sala ou da tela. No atendimento online, essa construção também é possível, ainda que algumas condições da sessão sejam diferentes. Alguns assuntos podem levar tempo até conseguirem ser ditos; outros talvez apareçam primeiro pela metade, cercados de hesitações.
Esse tempo também faz parte do processo e ajuda a entender por que não existe uma duração única para uma psicoterapia.
Não existe a obrigação de contar algo íntimo apenas porque você começou uma terapia. Com o tempo, o espaço terapêutico pode permitir que você fale sem precisar organizar tudo em função daquilo que imagina que o outro gostaria de ouvir.
Você não precisa fazer a primeira sessão “direito”
Talvez essa seja a principal coisa a saber antes de começar.
Você não precisa chegar com os acontecimentos em ordem, conhecer a origem daquilo que sente ou escolher previamente quais assuntos são importantes o suficiente para ocupar uma sessão.
Pode chegar com uma pergunta. Com uma crise. Com uma história enorme. Com uma coisa aparentemente pequena que não sai da cabeça.
Pode chegar simplismente dizendo:
“Eu não sei por onde começar.”
A primeira sessão não é uma prova da sua capacidade de falar sobre si. É o começo de uma experiência em que a própria maneira de falar, lembrar, hesitar, explicar e perguntar também faz parte do processo.
Você não precisa saber antecipadamente onde essa conversa vai chegar.
Por enquanto, basta começar.
O que falar na terapia? Sobre falar livremente em sessão de psicoterapia
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© 2026 Vitória Dias · Psicóloga

