Ansiedade e psicoterapia: como a terapia pode ajudar?

Entenda como a ansiedade pode se manifestar no cotidiano e de que forma a psicoterapia pode ajudar a compreender o que sustenta essa experiência.

Vitória Dias — Psicóloga Clínica | CRP 13/13024

8/31/20265 min read

Tem uma coisa curiosa na ansiedade: ela não lida bem com o que ainda não aconteceu. Uma conversa marcada para depois do almoço consegue sequestrar a manhã inteira. Uma mensagem que ainda não chegou já é motivo suficiente para você imaginar três, quatro, cinco desfechos diferentes — e, na maior parte das vezes, nenhum deles bom. Às vezes, basta a possibilidade de que algo dê errado para que o corpo já reaja como se o problema já estivesse batendo na porta.

Até certo ponto, antecipar é só viver. A gente faz plano, calcula risco, se prepara — e isso não precisa doer. Só que, na ansiedade, essa conta muda de figura: uma possibilidade qualquer invade o presente com uma urgência que não tem muito interesse em negociar.

É aí que muita gente percebe que já não consegue simplesmente “deixar para depois” uma preocupação. Mesmo quando não há absolutamente nada a fazer naquele momento, o pensamento segue catando solução, garantia, algum jeito de se blindar. O problema nem aconteceu — talvez nem aconteça —, mas parte do estrago já foi feita.

Quando a ansiedade começa a ocupar espaço demais?

Sentir ansiedade diante de uma mudança, de uma espera, de algo importante não é sinônimo de que algo esteja errado. Tem hora que a gente simplesmente não sabe o que vai acontecer e tenta, do jeito que dá, se preparar para isso.

A complicação começa quando essa antecipação para de ficar restrita a algumas situações específicas e vira modo de operação padrão. A pessoa passa a responder não só ao que de fato acontece, mas ao que ela imagina que pode acontecer — o que é, convenhamos, um território consideravelmente maior e mais instável.

Isso aparece de formas bem diferentes: inquietação que não desliga, sono desregulado, dificuldade de concentração, irritabilidade ou aquela necessidade meio compulsiva de estar sempre ocupado, porque parar parece piorar tudo.

O corpo também entra na dança. Tensão muscular, dor de cabeça, problemas gastrointestinais — sintomas que, vale reforçar, sempre merecem investigação médica, já que podem estar ligados a outras causas. Nos quadros mais intensos, como nas crises de pânico, a angústia chega junto com sensações físicas fortíssimas e a certeza de que algo grave está prestes a acontecer.

As manifestações variam bastante de pessoa para pessoa. Mas tem uma situação que interessa especialmente ao trabalho clínico: às vezes, o sujeito descreve com precisão cirúrgica o que sente e, ainda assim, não faz a menor ideia de por que aquilo ganhou tamanha força.

Por que entender a ansiedade nem sempre é suficiente?

Dá para reconhecer que está antecipando demais uma situação e, mesmo assim, continuar fazendo exatamente isso. Dá para saber, com dados e tudo, que a preocupação é improvável. Dá para ouvir “está tudo bem” de gente de confiança, construir os melhores argumentos possíveis para se tranquilizar — e a inquietação simplesmente não dar a mínima para nada disso.

Essa distância entre saber e conseguir fazer diferente é exatamente onde a psicoterapia entra.

Antecipar sem parar pode ser uma forma de tentar reduzir o espaço do imprevisto a zero. Uma rotina permanentemente lotada pode ter uma função que vai muito além das tarefas que a preenchem. Uma cobrança que hoje parece vir só do trabalho pode carregar expectativas que começaram a se formar bem antes dele — às vezes, décadas antes.

Não existe uma explicação única que sirva para todo mundo. E é justamente porque a ansiedade se articula de um jeito diferente na história de cada pessoa que investigar o lugar dela pode importar tanto quanto tentar simplesmente baixar sua intensidade.

Nem sempre, porém, é fácil saber quando uma experiência como essa é motivo para procurar ajuda. Em Como saber se preciso de terapia? Quando procurar um psicólogo, parto justamente dessa dúvida — inclusive quando não existe uma crise ou um motivo claramente definido.

Como a psicoterapia ajuda, afinal?

É bem comum chegar à terapia sabendo exatamente o que acontece, mas sem conseguir dizer muito mais que isso. “Não consigo desligar.” “Penso demais.” “Parece que alguma coisa vai acontecer.” Frases certeiras — e que, ao mesmo tempo, dizem pouco sobre o que sustenta tudo aquilo.

A psicoterapia oferece as condições para que essa experiência possa, enfim, ser investigada.

Na perspectiva psicanalítica, isso acontece principalmente pela fala e pela escuta. Ninguém precisa chegar sabendo explicar a origem da própria ansiedade — pelo contrário: parte do trabalho está em poder falar sem que tudo já esteja compreendido e arrumadinho de antemão.

Por isso, a escuta clínica não se limita ao conteúdo da história contada. Importa como certos episódios são narrados, onde aparecem as contradições, o que custa a ser dito, quais certezas começam a rachar quando precisam vir em forma de palavras.

Aos poucos, aquilo que parecia uma ansiedade sem endereço fixo vai ganhando localização. Determinadas situações deixam de ser reconhecidas só pelo mal-estar que causam e passam a ser vistas pelo que colocam em jogo — realmente — para aquela pessoa.

Isso não é descobrir uma causa única, tampouco garantir que a ansiedade nunca mais vai aparecer. O que pode mudar é a posição de quem, antes, só sabia responder daquele mesmo jeito, sempre.

O tempo da ansiedade x o tempo da terapia

Existe uma diferença e tanto entre os dois tempos.

A ansiedade gosta de se adiantar. Quer saber antes, resolver antes, se blindar antes de qualquer coisa acontecer. No auge, uma possibilidade é vivida quase como certeza: algo vai dar errado, e o corpo já reage como se precisasse lidar com isso agora — nesse exato segundo.

O trabalho terapêutico não corre atrás dessa urgência, e nem deveria. Algumas conexões aparecem já nas primeiras sessões; outras pedem tempo — bastante tempo — para serem formuladas e, só depois, elaboradas.

É bem possível entender rapidinho que uma cobrança é exagerada e continuar se cobrando do mesmo jeito amanhã. É possível reconhecer que um medo não corresponde à realidade e ele não ir embora por isso. Entre reconhecer algo e conseguir se posicionar diferente diante daquilo, existe um processo — e ele não é instantâneo.

Esse intervalo entre perceber algo e conseguir se posicionar de outra forma também ajuda a entender por que uma psicoterapia não tem duração previamente definida. É sobre essa questão que escrevo em Quanto tempo dura uma psicoterapia? Entenda a duração do processo terapêutico.

Diante de uma experiência tão obcecada em chegar primeiro, a psicoterapia oferece a possibilidade de um outro tempo. Nem tudo precisa de resposta imediata. Algumas questões precisam ser compreendidas antes que seja possível responder a elas de outro modo.

Ansiedade e psicoterapia: como a terapia pode ajudar?

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